
Acolhimento | Mergulha e Voa





Acolhimento sobre a resiliência dos biomas e das comunidades originárias brasileiras. As imagens desta série não mostram apenas a beleza, mas a urgência de “emanar energia” para os territórios que resistem. As fotografias trazem o desejo de registrar o que pulsa, o que cura e o que sobrevive em meio às negligências, dando rosto e luz às pessoas, animais e ambientes que são os guardiões da nossa terra. Ao aproximar diferentes formas de vida, a série revela relações de cuidado construídas entre comunidades e territórios, evidenciando saberes que atravessam gerações e sustentam modos de existência profundamente conectados à natureza. Em um tempo marcado por crises ambientais e pela crescente ameaça aos ecossistemas, as imagens nos convidam a reconhecer a importância daqueles que permanecem na defesa da biodiversidade, da memória e da vida coletiva. As fotografias operam como gestos de devolução: devolvem atenção ao que foi naturalizado, devolvem presença ao que se tentou apagar e devolvem densidade aos vínculos que mantêm esses territórios vivos.
Bilibeu – Ingrid Barros








São Bilibeu ou Belebreu, santo que tem como um de seus milagres dar graças à fertilidade das mulheres, é uma figura negra esculpida em madeira, que possui uma festa secular nascida originalmente em Centro do Antero, situada em um povoado há mais ou menos 12 km da sede do município de Viana, Maranhão, dentro do território indígena dos Gamella. O festejo é uma celebração cultural e religiosa que inclui diversas manifestações tradicionais dos Akroa Gamella, como danças, cantos, rituais e a partilha de alimentos. É também um momento de reafirmação da identidade dos Akroa Gamella e de resistência frente às pressões externas. É um tempo para celebrar sua história e lutar pela preservação de seu território. A série acompanha essa celebração como espaço de encontro entre memória, espiritualidade e pertencimento. As imagens revelam não apenas os rituais e seus símbolos, mas também os vínculos que mantêm viva uma tradição transmitida ao longo de gerações. Entre gestos de devoção, corpos em movimento e momentos de convivência coletiva, emerge a força de uma comunidade que encontra na celebração um modo de fortalecer sua identidade e reafirmar sua presença no território. Realizadas entre 2018 e 2019, as fotografias evidenciam as múltiplas camadas que constituem essa experiência: a fé, a ancestralidade, a memória coletiva e a contínua defesa dos modos de vida Akroa Gamella. Nesse sentido, a festa de Bilibeu se apresenta como um espaço de permanência, onde passado e presente se encontram e onde a celebração se torna também um gesto de resistência cultural.
Do parto à partida | Sonia Goés






A partir da trajetória de uma filha adotada que procura reconstruir sua história, a série aborda maternidade, ancestralidade e pertencimento. As imagens revelam como experiências individuais se entrelaçam a heranças culturais e afetivas mais amplas. Ao refletir sobre a experiência de uma mulher negra em busca de suas origens, o trabalho percorre os caminhos pelos quais identidade e memória se constroem, movidas pelo desejo de tecer vínculos e reencontrar suas raízes. Entre lembranças, vestígios e reconstruções, a série sugere que pertencimento não é apenas aquilo que se herda, mas também o que se constrói ao longo do caminho. Nesse movimento, a maternidade aparece não apenas como experiência biológica, mas como elo de transmissão de memórias, afetos e legados que atravessam gerações. Do parto à partida convida o público a percorrer essa jornada de busca e reconhecimento, onde a identidade emerge como um território em constante construção. Ao reunir passado e presente, ausência e presença, a obra revela a potência dos vínculos que nos formam e a persistência das raízes que, mesmo quando ocultas, continuam a nos chamar de volta.
Brasa | Monique Burigo




Brasa reúne as cinzas e as faíscas das histórias compartilhadas por mulheres da família da artista, transformando memórias íntimas em uma reflexão sobre as experiências femininas no contexto latino-americano. Desenvolvido a partir de entrevistas, escutas e convivências, o trabalho articula fotografia, escrita e apropriação de arquivos domésticos para investigar os modos pelos quais saberes, silêncios, afetos e violências são transmitidos entre gerações de mulheres. Ao entrelaçar lembranças pessoais e narrativas coletivas, a série revela como a memória é construída tanto pelo que é dito quanto pelo que permanece oculto. Retratos, documentos, imagens de família e fragmentos de histórias compõem uma trama em que experiências individuais passam a ecoar questões mais amplas relacionadas ao gênero, ao cuidado, ao trabalho, à maternidade e às formas de resistência presentes no cotidiano feminino. As imagens operam como vestígios de presenças que persistem no tempo, convocando um olhar atento para as heranças emocionais e simbólicas que atravessam diferentes gerações. Nesse percurso, o arquivo familiar deixa de ser apenas um repositório de lembranças para se tornar um espaço de investigação, onde memórias são revisitadas, tensionadas e ressignificadas. Como sugere o título, Brasa habita o intervalo entre aquilo que aparentemente se apagou e aquilo que continua incandescente. Entre cinzas e rastros, a série evidencia a permanência de histórias que seguem vivas nos corpos, nas relações e nas formas de narrar a própria existência.
Luta que segura o mundo | Mylena Tiodósio




Nas fronteiras impostas por uma sociedade que tem deixado seus valores originários, os povos indígenas se posicionam em linha de frente, buscando o diálogo e convocando a responsabilidade que todos temos de cuidar do planeta. Suas presenças balançam as estruturas de um progresso forjado em violência, exploração e destruição. Guardiões da natureza, se apresentam como guerreiros protetores de uma ancestralidade presente em modos de vida mais sustentáveis para todos. Mais do que guardiões, os povos indígenas são portadores de conhecimentos ancestrais construídos ao longo de gerações, saberes que articulam território, espiritualidade, memória e coletividade. Em seus modos de viver, a floresta, os rios, os animais e os seres humanos não ocupam lugares separados, mas compõem uma rede interdependente de existência. A série de Mylena Tiodósio aproxima o olhar dessas presenças que persistem, resistem e reexistem. Suas imagens revelam a força de uma luta cotidiana que não se restringe à defesa de um território físico, mas que sustenta memórias, cosmologias e futuros possíveis. São corpos que carregam a ancestralidade como força viva e que, ao protegerem seus territórios, também protegem horizontes de vida mais justos e sustentáveis para toda a humanidade.
Mátria | Rapha Dutra




Abya Yala: terra-mãe que evoca a memória ancestral como um futuro possível e um presente inequívoco. Lares que se erguem sobre os braços de mulheres que habitam a casa em sentido expandido, donas de casa, trabalhadoras nos horários comerciais, cuidadoras e apagadas. Evocar uma Mátria é reconhecer o pilar fundamental de nossa sociedade latinoamericana. Uma identidade de pedagogia das mães solos, avós, das jovens responsáveis pelos irmãos, das travestis que se unem em família apesar do abandono. As águas do mundo são femininas, apesar da normativa gramatical insistir que o mar e o rio sejam masculinos. Irromper a palavra através do sentido é alcançar a Coisa que existe antes dela, a palavra que sempre chega atrasada àquilo que é. O que é, apenas é e se sente. No Recôncavo Baiano, a tradição conta que Iemanjá subiu o Rio Paraguaçu em forma de baleia para acolher o lamento do povo escravizado, transformando-se em pedra para ali permanecer sob agô de Oxum. Duas mães que se encontram em força descomunal e fazem do seu povo resistência aos autoritarismos do mundo. Os marulhos do mundo são vozes femininas. São mulheres que se recusam ao apagamento e sustentam, em sutileza e grandeza, a vida em suas múltiplas possibilidades.
Transpirar de Gaya | A Transälien

Ventre que gera, substância que nutre, conecta e tece o fio da vida.
Potência criativa, transmuta as perspectivas e reorienta os olhares.
Dentro dela tudo o que irá existir já existe de forma livre de dualidade.
O Transpirar de Gaya é uma série fotográfica que investiga as relações de interdependência entre corpo, terra e transformação, propondo uma simbiose entre a natureza e corpos dissidentes como territórios vivos de criação, resistência e renascimento. As imagens evocam a potência regenerativa da natureza como uma força vital que, em constante mutação, desafiam fronteiras e concepções normativas de existência. Ao reconhecer o corpo como espaço de construção de memória, disputa e reinvenção, a série entrelaça dimensões humanas e naturais para repensar o nosso lugar num mundo onde diferentes formas de opressão se ocultam sob discursos de ordem e progresso, reafirmando a potência da diversidade e da coexistência como caminhos para imaginar futuros mais plurais e regenerativos.
Odés: Os que vieram depois | Isa Arnas



Odés: Os que vieram depois nasce da crença de que a existência não se encerra em nosso próprio corpo. Ensinamos, cuidamos e amamos de maneiras que permanecem, inscritas na pele, nos gestos e nos modos de habitar o mundo. Há algo que continua a existir na forma como alguém segura um filho, atravessa um rio ou transmite uma história. A isso chamamos corpo-oralidade: a transmissão daquilo que não se escreve, mas que segue sendo dito em outros corpos, outras vozes e outras mãos que repetem, recriam e preservam. Entre comunidades indígenas e ribeirinhas, essa permanência não é uma metáfora, mas uma experiência cotidiana. Ela se manifesta nos conhecimentos transmitidos de avó para neta sem a mediação da escrita, nos caminhos do território aprendidos pelo caminhar e nas línguas que sobrevivem primeiro no corpo para, depois, permanecerem na memória. É por meio dessas práticas que saberes, afetos e modos de vida atravessam gerações. O olhar desta série chega de fora, mas não procura ocultar essa condição. Aproxima-se pela escuta, pelo respeito e pela consciência de que fotografar também é um gesto de responsabilidade. As imagens reconhecem esses corpos como territórios de memória, marcados pela presença daqueles que vieram antes e pela continuidade daqueles que ainda virão. Há, nelas, o reconhecimento de que cada existência carrega outras consigo: corpos que eternizaram os que os antecederam e que, por sua vez, serão eternizados nas gerações futuras.
Quem me conhece, sabe | Nina Leal






A série explora um grupo de amizades que se encontraram através da patinação. Apesar dos diferentes ritmos de vida, elas se fortalecem nessa modalidade majoritariamente masculina, estigmatizada pela suposta “radicalidade” ou “agressividade” que, segundo estereótipos, não serviria às mulheres. O nome vem do palavreado popular e faz referência ao fato de seguirem juntas, resistindo cada uma à sua maneira e caminhando em bando. Patinar pela cidade torna-se, ao mesmo tempo, enfrentamento, realização e descoberta. Sobre elas recaem olhares que tentam impor tradições e limites; em resposta, afirmam sua liberdade, ainda que de rostos cobertos. No centro de São Paulo, exploram as camadas de hostilidade que atravessam o espaço urbano e, juntas, transformam a raiva em movimento.
Rio Preto – Francielle Nonato



Uma terra que me povoa é uma terra não é só o chão, também é rio. Ao pesquisar sobre meu território, descobri que o Rio Preto, sempre presente em minha memória afetiva da zona rural onde vivem meus avós maternos, está prestes a concluir seu percurso. Sua nascente fica em Jaguaquara, cidade do sudoeste da Bahia onde cresci. De lá, seu leito segue pela Fazenda Aurora, propriedade de meus avós em Wenceslau Guimarães, no Baixo Sul baiano, encontra-se com o Rio das Almas, em Nilo Peçanha, e deságua nas proximidades das ilhas de Boipeba e Tinharé. Essa conexão, para mim, diz muito. É como se o curso da minha própria vida acompanhasse o movimento dessas águas, atravessando territórios, memórias e afetos que, de diferentes formas, também me constituem. O projeto documental teve início em 2019 e nasce da profunda relação entre a comunidade e o percurso das águas do Rio Preto. Beber, banhar-se, cozinhar, lavar: são inúmeras as formas pelas quais o rio sustenta a vida cotidiana e molda a experiência de quem vive em seu entorno. Não por acaso, uma empresa privada planeja construir, nos próximos anos, uma barragem para explorar seu potencial hídrico. Diante da fragilidade da resistência popular — muitas vezes atravessada pelas promessas de progresso associadas ao empreendimento — restou-me documentar as pessoas, os modos de vida e as paisagens que sempre fizeram parte da minha vivência na zona rural. Mais do que um registro, este trabalho busca preservar memórias, afetos e relações que correm o risco de serem transformados junto com o curso dessas águas. Há tanta água que as bicas nunca se fecham. A correnteza é tão forte que parece subir montanhas, abrindo caminhos possíveis para serem percorridos por muitas. E digo muitas porque são as mulheres que protagonizam essa trajetória. Como canta a baiana do Recôncavo, Sued Nunes, costumamos falar da terra como algo povoado. A terra é povoada, mas nós também somos terra. Somos, igualmente, território de semeadura, de passagem e de povoamento. É nessa relação entre corpo, água e território que essas trajetórias se inscrevem e se perpetuam.
Será Ley? Eloá Souto
¿Será Ley? é uma série-manifesto que documenta a luta pela legalização do aborto seguro, legal e gratuito na Argentina. As fotografias que compõem o trabalho foram realizadas entre 2019 e 2020, durante mobilizações ocorridas nas cidades de La Plata e Buenos Aires, acompanhando um dos mais significativos movimentos sociais da história recente da América Latina. As imagens registram a força coletiva que impulsionou a campanha pelo aborto legal, uma mobilização que ultrapassou as fronteiras argentinas e reverberou em todo o continente. Mais do que reivindicar mudanças legislativas, o movimento contribuiu para ampliar o debate público sobre direitos reprodutivos, promover o acesso à informação e fortalecer redes de apoio e acolhimento para mulheres em diferentes contextos de vulnerabilidade. Ao acompanhar corpos em marcha, gestos de resistência e manifestações de esperança, a série evidencia como a conquista de direitos é resultado de processos coletivos de organização e enfrentamento. Nesse sentido, as fotografias não apenas documentam um acontecimento histórico, mas também preservam a memória de uma luta protagonizada por milhares de mulheres e movimentos sociais. Sob a atual gestão de extrema direita que governa o país, a legislação conquistada enfrenta desafios que colocam em risco sua efetiva implementação. Cortes e restrições em políticas de saúde sexual e reprodutiva impactam o acesso a insumos, medicamentos e serviços de saúde responsáveis pela garantia desse direito. Diante desse cenário, ¿Será Ley? adquire uma nova camada de leitura: além de testemunho de uma conquista histórica, torna-se registro da permanente necessidade de defesa dos direitos humanos. As imagens revelam que nenhuma conquista é definitiva e que a manutenção de direitos depende, continuamente, da mobilização e da vigilância coletiva.
Sinal de Passagem – Marina Soares








Sinal de Passagem nasce de relatos sobre Comadre Fulozinha, também conhecida como Maria Fulozinha, figura presente no imaginário popular nordestino. Considerada uma entidade protetora das matas e dos animais, é conhecida por apreciar oferendas como fumo de rolo e mel, além de assoviar e pregar peças àqueles que atravessam seus caminhos sem permissão. Dizem que ela substitui pássaros em perigo por pedras em seus ninhos, trança a crina dos cavalos como marca de sua passagem e laça as pernas de quem cruza seu caminho para libertar animais presos. Há quem a descreva como uma criança e quem a veja como uma mulher adulta, mas quase sempre com longos cabelos escuros. Realizada entre os distritos de Mandacaru e Gravatá, em Pernambuco, a pesquisa foi construída a partir da escuta de histórias narradas por familiares e conhecidos, cujas memórias serviram de base para a elaboração das imagens. Em alguns casos, a interpretação contou com a participação daqueles que compartilharam os relatos, que se dispuseram a encarnar, diante da câmera, os próprios personagens das histórias que contavam. Fotografadas em filme 120, as imagens transitam entre documento e fabulação, revelando a força das narrativas orais e a permanência de personagens que continuam a habitar a memória coletiva e os territórios onde essas histórias seguem sendo contadas.
Soberania Alimentar: A raiz do nosso mundo – Tamara dos Santos






Essa série aborda a importância do papel das mulheres — especialmente negras e indígenas — no campo, evidenciando seus saberes como formas de resgate e continuidade ancestral. Através dos conceitos de agroecologia e sabedoria do plantio, essas mulheres têm sido cruciais na luta por um meio ambiente mais sustentável e digno. Em meio às sucessivas crises ambientais que marcam o presente, esses saberes emergem como formas de permanência e reinvenção, apontando caminhos baseados na reciprocidade, no respeito aos ciclos da terra e na defesa da vida. Ao ocuparem novamente o centro dessas práticas, as mulheres reafirmam sua autonomia e seu protagonismo na construção de territórios mais justos e sustentáveis. Seus conhecimentos, muitas vezes invisibilizados pela história oficial, revelam a agroecologia não apenas como prática agrícola, mas como herança cultural, tecnologia ancestral e horizonte de futuro. Essa perspectiva nos convida a compreender a agroecologia como um saber ancestral, transmitido entre gerações, cuja permanência oferece caminhos para a construção de futuros mais prósperos e saudáveis. Nela, a relação com o meio ambiente se estabelece pela reciprocidade, pelo cuidado e pela troca, em contraposição às lógicas de exploração que marcam o presente.